Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista e ex-secretário de Saúde, explica que uma das dúvidas mais comuns entre pacientes surge quando elas descobrem que as recomendações para realizar uma mamografia não são iguais em todos os países. Enquanto algumas diretrizes indicam o início do rastreamento aos 40 anos, outras recomendam começar aos 50. Há locais em que o exame é anual, enquanto outros adotam intervalos de dois ou até três anos. Essa diferença costuma gerar insegurança e a impressão de que a medicina ainda não chegou a um consenso. Na realidade, o motivo é muito mais complexo e envolve fatores científicos, epidemiológicos, econômicos e até características demográficas de cada população.
A existência de protocolos diferentes não significa que um país esteja certo e outro errado. As recomendações são construídas a partir de extensos estudos clínicos, modelos matemáticos, análises de custo-efetividade e da realidade dos sistemas de saúde. Em vez de perguntar qual protocolo é o melhor, talvez a questão mais importante seja entender por que uma mesma tecnologia pode ser utilizada de maneiras diferentes ao redor do mundo e quais critérios orientam essas decisões.
Se a mamografia é a mesma, por que as recomendações mudam?
À primeira vista, pode parecer lógico imaginar que um exame capaz de detectar o câncer de mama deveria seguir exatamente as mesmas regras em qualquer lugar do planeta. Entretanto, as diretrizes não são elaboradas apenas com base na qualidade do exame, mas também no comportamento da doença em cada população. A incidência do câncer de mama, a idade média em que os casos aparecem, a densidade mamária predominante, a expectativa de vida e até a estrutura do sistema de saúde influenciam diretamente essas decisões.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, um programa de rastreamento não avalia apenas quantos tumores consegue encontrar. Ele precisa responder perguntas muito mais amplas: quantas vidas serão efetivamente salvas, quantos exames adicionais serão necessários, quantas biópsias benignas poderão ocorrer, qual será o custo para o sistema de saúde e qual o impacto dessa estratégia para milhões de mulheres ao longo de décadas. É justamente esse equilíbrio entre benefícios e possíveis efeitos indesejáveis que explica a existência de recomendações distintas.
Como as evidências científicas se transformam em diretrizes?
Uma diretriz médica não nasce da opinião de um especialista ou de uma única pesquisa publicada. Antes que uma recomendação seja incorporada por organizações como o American College of Radiology (ACR), a European Society of Breast Imaging (EUSOBI), a U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) ou o Instituto Nacional de Câncer (INCA), centenas de estudos são analisados em conjunto. Revisões sistemáticas, metanálises, grandes ensaios clínicos e estudos populacionais são avaliados para medir o impacto real de cada estratégia de rastreamento.
Além dos resultados científicos, entram na análise modelos estatísticos capazes de simular o que aconteceria com milhões de mulheres ao longo da vida. Esses modelos estimam quantos cânceres seriam detectados precocemente, quantas mortes poderiam ser evitadas, quantos exames falso-positivos seriam gerados, quantas biópsias desnecessárias ocorreriam e até quantos anos de vida saudável seriam acrescentados à população. Em outras palavras, as diretrizes são construídas para equilibrar benefícios clínicos, riscos e sustentabilidade dos sistemas de saúde.

O sistema de saúde também influencia as recomendações?
Embora a ciência seja a base das diretrizes, nenhum protocolo existe isoladamente da realidade em que será aplicado. Um país que possui cobertura nacional de rastreamento, convoca automaticamente as pacientes, mantém equipamentos modernos distribuídos de forma homogênea e garante acesso rápido à biópsia e ao tratamento, pode adotar estratégias diferentes daquelas utilizadas em sistemas que enfrentam dificuldades de acesso ou desigualdades regionais.
Na avaliação do Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, esse é um dos aspectos menos conhecidos pela população. O sucesso de um programa de rastreamento não depende apenas da mamografia. Ele envolve toda uma cadeia assistencial: agendamento, qualidade técnica do exame, interpretação especializada, confirmação diagnóstica, início oportuno do tratamento e acompanhamento das pacientes. Se qualquer uma dessas etapas falhar, mesmo um protocolo baseado nas melhores evidências pode produzir resultados inferiores aos esperados.
Por que alguns países estão abandonando o modelo “um exame para todas”?
Nos últimos anos, um dos maiores debates da radiologia internacional deixou de ser a idade ideal para iniciar a mamografia e passou a ser a necessidade de personalizar o rastreamento. Em vez de recomendar exatamente o mesmo protocolo para todas as mulheres, diversos grupos de pesquisa investigam modelos baseados no risco individual.
Esses modelos consideram fatores como histórico familiar, mutações genéticas, densidade mamária, idade, antecedentes pessoais e outros biomarcadores para definir quem pode se beneficiar de exames mais frequentes ou complementares. Conforme observa o Dr. Vinicius Rodrigues, essa estratégia representa uma mudança importante na medicina preventiva: o objetivo deixa de ser apenas aumentar o número de exames realizados e passa a identificar quais pacientes realmente precisam de um acompanhamento mais intensivo, reduzindo exames desnecessários sem comprometer a capacidade de detectar tumores precocemente.
O futuro dos protocolos será cada vez mais personalizado
As diferenças entre as diretrizes internacionais mostram que a medicina não trabalha com respostas universais, mas com decisões fundamentadas em evidências e adaptadas à realidade de cada população. À medida que novas pesquisas são publicadas, recomendações antigas podem ser revisadas, intervalos entre exames podem mudar e tecnologias como inteligência artificial, radiômica e modelos preditivos tendem a ser incorporadas de forma gradual às estratégias de rastreamento.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, compreender como essas diretrizes são construídas ajuda a reduzir a percepção de que existem orientações conflitantes. Na prática, elas refletem diferentes formas de aplicar o mesmo conhecimento científico diante de contextos populacionais distintos. Mais do que discutir qual país possui o melhor protocolo, o desafio para os próximos anos será desenvolver programas capazes de oferecer o exame certo, para a pessoa certa, no momento mais adequado, ampliando a efetividade da prevenção e tornando o diagnóstico precoce cada vez mais preciso.
